Os significados do diálogo no processo educativo
Dalva Aparecida Garcia
Professora de Filosofia no Ensino Médio e Coordenadora Pedagógica do CBFC
As mudanças de paradigmas educacionais, bem como as reformas educacionais propostas nos Novos Parâmetros Curriculares da Educação no Brasil, enfatizam a importância do diálogo no processo educativo. Se os moldes do ensino tradicional amarraram o processo educacional na autoridade do professor, fixando a máxima do “saber é poder”, uma nova educação que se propõe a auxiliar o desenvolvimento da autonomia intelectual e moral do cidadão, só poderia estar vinculada à transformação radical nas relações entre os sujeitos (professores e alunos) e objeto do conhecimento. Entretanto, seria preciso refletir sobre a re-significação do diálogo na escola diante deste contexto.
É evidente que o diálogo cumpre, em um novo modelo educacional, um importante papel, redirecionando o âmbito das relações e democratizando o acesso ao saber à medida que o processo dialógico pressupõe a troca e uma certa estrutura igualitária que garanta a participação de todos envolvidos na investigação e na construção do conhecimento. Não se trata mais do professor que ensina e do aluno que aprende. Mas de professor e aluno juntos, construindo e reconstruindo os referenciais e os significados da cultura e da natureza.
Porém, reduzir o papel do diálogo às mudanças no âmbito das relações entre sujeitos envolvidos na prática educativa é de certa forma, minimizar sua importância no interior do processo educacional.
Matthew Lipman afirma que a educação deve distanciar-se de um paradigma padrão em que professores questionam os alunos acerca do que lhes foi ensinado e aproximar-se de um paradigma-reflexivo onde alunos e professores questionam-se entre si. Apoiado nas teorias de Dewey, Lipman acredita que o verdadeiro processo educacional deve apresentar problemas dotados de significação para que se torne possível a investigação e o desenvolvimento do pensar na busca autêntica para as soluções de situações problemáticas.
Para Lipmam, o processo educativo na sala de aula deveria tomar como modelo o processo de investigação científica, ou seja, ao invés de ensinar soluções, a escola deveria ensinar a investigar os problemas e propiciar o envolvimento dos alunos nos questionamentos, estimulando-os a pensar de forma crítica, criativa e cuidadosa. Ora, se é verdade que a escola tem se dedicado ao ensino das ciências, é igualmente verdadeiro que se limitou à divulgação dos produtos e negligenciou o processo de investigação que caracteriza toda e qualquer ciência.
Dermeval Saviani, em seu texto “Educação: Do senso comum à consciência filosófica”, nos alerta para um dos principais equívocos da educação: a construção de um modelo de ensino-aprendizagem baseado em pseudoproblemas, ou seja, professores e alunos freqüentemente confundem questões mais ou menos complexas com situações problemáticas. É o que geralmente presenciamos nos chamados exercícios escolares. Os alunos já conhecem de antemão os procedimentos que os levam a solucionar a questão proposta e quando não os conhecem, sabem que o professor sabe. A escola deixa de ser um desafio para ser um espaço de realização de tarefas. Segundo o autor, o primeiro passo para a construção de uma educação reflexiva seria o resgate da “problematicidade do problema”. A essência do problema não está naquilo que não se sabe, mas no que não se sabe e se tem verdadeira necessidade de saber. O processo de problematização, pressuposto fundamental para qualquer investigação, está na busca de situações autenticamente desafiadoras e significativas.
As salas de aula como pequenas Comunidades de Investigação e crianças passando pela mesma experiência que passam os cientistas no seu processo de descobertas, constitui proposta revolucionária de Lipman. Trata-se de assegurar, no processo educativo, o direito das crianças de desenvolver e ampliar seu potencial cognitivo e participar ativamente no processo de construção de seu conhecimento.
Tal processo de construção se efetua nas relações com os outros. Nas "Comunidades de Investigação" propostas por Lipman, as crianças discutem questões levantadas por elas mesmas, as que autenticamente se constituem problemas, e vivenciam as questões levantadas pelo grupo, fortalecendo e estruturando o pensamento, ampliando o conhecimento de si e do mundo. O corpo e alma da Comunidade de Investigação é o diálogo, a investigação intelectual cooperativa e autocorretiva , capaz de motivar a conversa disciplinada sobre os assuntos essenciais que envolvem as experiências humanas. Neste sentido, o diálogo é mais do que uma conversa entre alunos e professores. Afirma Lipman que, se a característica fundamental da conversa é o acentuado tom pessoal e a busca do equilíbrio, o diálogo almeja o desequilíbrio e a ênfase da conversação se desloca do tom pessoal para a busca de fio lógico que garanta a coerência das afirmações, a utilização de critérios e a manutenção do foco no tema em pauta provocando um movimento progressivo. As analogias utilizadas pelo próprio autor são reveladoras: “A conversa movimenta-se como uma gangorra entre os protagonistas, porém a conversa em si não se movimenta (...) O diálogo é uma caminhada, onde nos movimentamos para frente através de constantes desequilíbrios. Cada passo adiante possibilita um passo para frente; no diálogo, cada argumento evoca um contra-argumento (...) Uma conversa é uma troca de sentimentos, pensamentos, informações, interpretações. Um diálogo é um exame, uma investigação, um questionamento” (Lipman, O Pensar na Educação, p. 336)
Além da troca, o diálogo favorece o resgate do verdadeiro sentido do educar: a caminhada do pensamento em busca de múltiplas soluções para os problemas autênticos que cercam nossa existência. Re-significar o diálogo, neste contexto, é mais do que considerá-lo como elemento transformador no âmbito das relações entre sujeito e objeto de conhecimento, capaz de democratizar as relações entre professor e aluno. Re-significar o diálogo é re-significar o próprio conceito do educar, é alterar a fórmula do “saber é poder” para o desafio do poder saber com autonomia e cooperação.
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